Em órbita 400 quilômetros acima da Terra, Scott Kelly consertava o banheiro na Estação Espacial Internacional (EEI) quando recebeu a ordem de atender uma ligação particular de Houston. Lá no alto, pensou, chamadas particulares nunca trazem nada bom. Àquela altura da vida, antes de subir pela terceira vez ao espaço, Scott já perdera amigos queridos na tragédia da Columbia, passara por um divórcio turbulento e por uma cirurgia para extirpar um câncer agressivo na próstata – do mesmo tipo que depois atacaria Mark, seu gêmeo idêntico e também astronauta. Dias antes, Scott fora obrigado a passar pelo constrangimento de perguntar a um cosmonauta se trouxera um Alcorão a bordo (resposta: “Não é da sua conta”.). Que Houston queria agora? Naquele 8 de janeiro de 2011, recebeu a notícia de um atentado cuja natureza nada tinha a ver com islã ou russos. O autor era um esquizofrênico. O alvo, a mulher de Mark, a então deputada Gabrielle Giffords, que discursava no estacionamento de um supermercado no Arizona. Uma bala perfurou o cérebro dela. Seis pessoas morreram, entre elas uma criança. Gabby sobreviveria – mas isso só se saberia depois. Naquele momento, Scott entendeu o significado de estar preso no espaço, sem poder, diante de tanta dor, nem mesmo abraçar aqueles que mais amava.

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Livro da semana | Endurance:  um ano no espaço (Foto: Divulgação )

Deixou o conserto do banheiro nas mãos de dois astronautas menos experientes. Não era uma tarefa trivial. “Se estivéssemos a caminho de Marte e o banheiro quebrasse sem conserto, estaríamos mortos”, conta em Endurance: um ano no espaço. A dor daquele dia não impediu que ele voltasse à estação espacial em 2015 com o cosmonauta Mikhail Kornienko para mais uma missão – uma temporada de 340 dias, a mais longa a bordo da EEI (o recorde de permanência no espaço pertence ao russo Valeri Polyakov: 438 dias na estação russa Mir entre 1994 e 1995). Scott emprestou o título de seu livro, cujo sentido mistura resistência e tenacidade, da obra de Alfred Lansing sobre a expedição de Ernest Shackleton ao Polo Sul, em que o navio ficou preso no gelo. Julgava que Shackleton atravessara situações bem mais críticas que ele e, no espaço, recorria ao livro de Lansing em momentos de tensão. Duas naves de reabastecimento explodiram. Um satélite perdido passou raspando pela estação. Numa caminhada espacial, esqueceu-se de travar um carrinho usado como apoio de manutenção, reconheceu o erro e teve de passar mais uma vez pelo estresse e pelo risco de sair ao vácuo. Foi mediador numa crise entre os russos – numa improvável lição de geopolítica. Cultivou alfaces e zínias, que só vicejaram porque ele rompeu o protocolo experimental. Dissecou roedores e foi, ele próprio, cobaia. Num experimento preparatório à missão a Marte, seu corpo será comparado pelo resto da vida ao de Mark, de carga genética idêntica, com o objetivo de estudar os efeitos da longa permanência no espaço.

O que torna a estação espacial interessante nada tem a ver com experimentos científicos. Tudo flutua. Objetos perdidos são rotina (um é achado oito anos depois). A esteira de exercícios (obrigação diária) fica na vertical, contra a parede. Escassa, a água vem de urina destilada. O excesso de gás carbônico afeta humor e raciocínio (reparos na máquina de reciclagem de ar são frequentes). Comer é um desafio (uma bolha de café flutuante ameaça os equipamentos). Alimentos frescos são luxo (europeus trazem a melhor comida). Roupas são usadas ao máximo, depois jogadas fora. O lixo é lançado em naves que queimam na volta à atmosfera (Scott usa uma russa sem autorização, depois é admoestado). O espaço tem um odor característico. Scott sente falta da chuva, da família, de casa. “Sinto saudade de cozinhar. De picar alimentos, de sentir o aroma que os vegetais exalam ao primeiro corte.” Do som das crianças brincando, “sempre o mesmo em qualquer idioma”. Do ranger do chão de madeira. Do calafrio do vento nas costas. Do calor do sol no rosto. De tomar banho, lavar o rosto e as mãos. Ao chegar em casa, seu primeiro ato é lançar-se à piscina, de roupa e tudo.

A narrativa alterna o ano a bordo da estação espacial com a trajetória pessoal de Scott, um péssimo aluno cuja vocação para astronauta foi despertada por um livro: Os eleitos, do jornalista Tom Wolfe. “Quando eu tinha 18 anos, estava sem rumo e era um aluno muito ruim”, escreveu a Wolfe num e-mail enviado do espaço. “Li seu livro e ele mudou minha vida. Ele retratou os pilotos de teste pioneiros e os astronautas de modo que eu podia facilmente assimilar e me fez pensar que eu poderia ser como eles. Foi a centelha que me pôs no rumo que me levou aqui ao meu ano no espaço.” Num mundo em que tanta gente se acha excepcional e vive ostentando insígnias sem valor algum, é reconfortante saber que um homem comum também pode mudar e conquistar seus desejos – e que as palavras de um livro ainda têm o poder de transformar as mentes.

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